Presságio VI - Hilda Hilst.

“Deitamos a semente/ E ficamos à espera de um verão” Os pássaros também pousam com frequência nos versos, com suas asas que nem sempre simbolizam a liberdade: há asas de fogo, de espanto, mas há também asas de ferro, asas arrancadas. Há, sobretudo, a vontade urgente de ser lida, compreendida, olhada outra vez: “Me fizeram de pedra/ quando eu queria/ ser feita de amor”.


Presságio
VI 
Água esparramada em cristal, 
buraco de concha, 
segredarei em teus ouvidos 
os meus tormentos. 
Apareceu qualquer cousa 
em minha vida toda cinza, 
embaçada, como água 
esparramada em cristal. 
Ritmo colorido 
dos meus dias de espera, 
duas, três, quatro horas, 
e os teus ouvidos 
eram buracos de concha, 
retorcidos 
no desespero de não querer ouvir. 

Me fizeram de pedra 
quando eu queria 
ser feita de amor. 

Hilda Hilst.

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